Jackson Cionek
297 Views

Quando o significado muda de lugar: o que EEG e fNIRS podem (e não podem) medir nas transformações profundas da consciência

Quando o significado muda de lugar: o que EEG e fNIRS podem (e não podem) medir nas transformações profundas da consciência

Durante muito tempo, muitos de nós carregamos preconceitos conceituais sobre experiências internas profundas. Uma das ideias mais comuns — e também mais mal compreendidas — é a noção de que “o que acontece no universo acontece dentro do corpo humano”. Quando essa frase é tratada de forma superficial, ela escorrega para o misticismo ingênuo. Mas quando observada pela lente da neurociência contemporânea e da Mente Damasiana, ela revela algo mais interessante: mudanças profundas de consciência não são sobre o universo lá fora — são sobre a reorganização do lugar onde o significado encarna.

Relatos de experiências intensas — seja em contextos contemplativos, terapêuticos ou com estados não ordinários de consciência — frequentemente descrevem fenômenos semelhantes: sensação de luz no peito, dissolução de identidade, fusão com a natureza, ou ciclos simbólicos de morte e renascimento. A leitura apressada tende a classificá-los como espirituais ou alucinatórios. Mas há uma hipótese mais fértil: esses eventos podem refletir reorganizações profundas da relação entre corpo, símbolo e consciência.

É aqui que entra a contribuição da Mente Damasiana. Se consciência emerge da integração entre interocepção (sentir o corpo por dentro) e propriocepção (sentir-se no espaço), então mudanças radicais de significado podem surgir quando esse eixo corporal se reorganiza. Não necessariamente porque novas palavras surgem — mas porque o corpo que sustenta essas palavras mudou.

O que exatamente muda nessas experiências?

Uma das transformações mais sofisticadas observadas nesses estados é a alteração do qualia das palavras e símbolos. O termo qualia costuma ser tratado como algo abstrato, mas na prática ele aponta para algo muito concreto: o lugar onde o significado é vivido.

Antes de certas experiências limítrofes, o significado costuma ser predominantemente cortical, semântico, narrativo. Depois, ele pode se tornar encarnado. As palavras passam a ser sentidas no corpo. Emoções deixam de ser apenas interpretações e tornam-se estados fisiológicos claros. Símbolos deixam de representar e passam a acontecer.

Essa mudança pode ser descrita como uma realocação do locus semântico corporal. Em vez de:

palavra → memória semântica cortical

passa-se a ter:

palavra → corpo vivido → memória episódica encarnada

Em termos da neurofenomenologia latino-americana emergente, isso dialoga com conceitos como Pei Utupe (a alma como memória encarnada) ou com a ideia de que o significado não está na linguagem, mas no corpo que a sustenta.

Onde entram EEG e fNIRS?

Se essas transformações são corporificadas, surge uma pergunta inevitável: é possível medi-las?

A resposta honesta é: em parte, sim.

EEG e fNIRS são hoje duas das ferramentas mais acessíveis para investigar mudanças dinâmicas da consciência. Cada uma oferece janelas distintas.

O EEG permite observar a dinâmica elétrica do cérebro em alta resolução temporal. Mudanças em estados de consciência frequentemente aparecem como:

  • alteração de microestados

  • variações em potenciais relacionados a eventos (P300, N400)

  • reorganizações de coerência funcional

  • mudanças em ritmos alfa, teta ou gama

Por exemplo, estados de dissolução de identidade podem vir acompanhados de redução de respostas P300, indicando menor surpresa diante de estímulos, ou alterações no N400, sugerindo reorganização semântica.

Já o fNIRS oferece uma janela hemodinâmica complementar. Ao medir variações de oxigenação cortical, especialmente em regiões pré-frontais, ele permite inferir mudanças em:

  • carga cognitiva

  • regulação autonômica

  • estados de fluxo

  • redistribuição metabólica cortical

Em estados contemplativos profundos, por exemplo, não é raro observar padrões de menor hiperfrontalidade combinados com maior coerência fisiológica global.

Quando combinados, EEG e fNIRS permitem uma abordagem multimodal poderosa, capaz de capturar tanto a dinâmica elétrica quanto o metabolismo cortical das transformações subjetivas.

Mas há limites claros

Apesar do entusiasmo tecnológico, é fundamental reconhecer: EEG e fNIRS não medem significado. Eles medem correlações fisiológicas.

Essa distinção é crucial.

Nenhum gráfico de EEG mostra “uma iluminação”. Nenhum mapa de fNIRS detecta “uma experiência espiritual”. O que essas ferramentas capturam são assinaturas neurofisiológicas associadas a reorganizações de atenção, emoção, semântica e autorreferência.

O risco surge quando pesquisadores confundem correlação com essência. Estados profundos de consciência são fenômenos de primeira pessoa. As tecnologias atuais capturam apenas sombras fisiológicas dessas experiências.

Isso nos leva a um ponto central: a qualidade da pergunta científica importa mais do que a sofisticação do equipamento.

A importância das perguntas certas

Uma mesma tecnologia pode gerar ciência revolucionária ou irrelevante dependendo da pergunta que a orienta.

Se perguntarmos:
“Qual é o padrão EEG da iluminação?”
provavelmente produziremos pseudociência.

Mas se perguntarmos:
“Como reorganizações interoceptivas alteram a semântica corporal?”
abrimos um campo legítimo de investigação.

Ou ainda:
“Quais marcadores multimodais acompanham mudanças duradouras no qualia de símbolos?”
entramos em território fértil.

Esse tipo de abordagem exige abandonar dicotomias simplistas entre ciência e experiência. Não se trata de validar narrativas espirituais nem de reduzi-las a ruído neural. Trata-se de construir pontes metodológicas rigorosas entre primeira pessoa e terceira pessoa.

Por que isso exige flexibilidade cognitiva?

Talvez o maior desafio não seja técnico, mas epistemológico.

Pesquisadores que exploram estados profundos de consciência inevitavelmente caminham na intersecção entre ciência, cultura e religião. Ignorar qualquer uma dessas dimensões empobrece a investigação.

Sem ciência, caímos em dogma.
Sem cultura, caímos em colonialismo epistemológico.
Sem espiritualidade, ignoramos dimensões centrais da experiência humana.

A neurociência do século XXI precisa de uma nova postura: rigor sem rigidez.

Isso implica cultivar flexibilidade cognitiva para formular perguntas que atravessem fronteiras. Perguntas capazes de dialogar com tradições contemplativas sem abdicar de método. Perguntas que respeitem experiências subjetivas sem abandonar critérios de evidência.

Em contextos latino-americanos, isso ganha uma dimensão ainda mais importante. Muitas culturas originárias nunca separaram corpo, espírito e território. Ignorar esse legado pode significar perder hipóteses científicas valiosas.

O papel da Neurociência Decolonial

É nesse ponto que emerge a proposta de uma Neurociência Decolonial: não como rejeição da ciência, mas como expansão do seu horizonte.

Essa abordagem parte de três princípios simples:

  1. O corpo é o primeiro laboratório.

  2. A cultura é uma variável experimental legítima.

  3. O significado é sempre encarnado.

Dentro dessa perspectiva, tecnologias como EEG e fNIRS deixam de ser instrumentos de validação e passam a ser ferramentas de diálogo. Elas não substituem a experiência, mas ajudam a mapear suas bordas fisiológicas.

Isso abre espaço para desenhos experimentais mais ousados, como:

  • estudos longitudinais de mudança semântica corporal

  • integração de relatos fenomenológicos estruturados com biomarcadores

  • hyperscanning em contextos coletivos de significado

  • protocolos que combinem linguagem, interocepção e cultura

Para onde avançar?

O próximo salto não virá apenas de sensores melhores, mas de perguntas melhores.

Precisamos de estudos que investiguem não apenas estados agudos, mas transformações duradouras: quando uma experiência muda o lugar onde o significado vive, o que permanece meses depois? Há assinaturas fisiológicas dessa reorganização? Como distinguir pico experiencial de mudança estrutural?

Responder a essas perguntas exigirá colaboração entre neurocientistas, antropólogos, clínicos e praticantes contemplativos. Exigirá humildade metodológica e coragem intelectual.

Conclusão

Experiências profundas de consciência não precisam ser romantizadas nem descartadas. Elas podem ser investigadas com rigor — desde que aceitemos seus paradoxos.

EEG e fNIRS já permitem observar fragmentos dessas transformações. Mostram mudanças em dinâmica elétrica, oxigenação cortical e organização funcional. Mas ainda estamos longe de medir o significado em si.

Talvez porque o significado não seja um objeto detectável, mas um processo vivido.

Se quisermos avançar, o desafio não será apenas tecnológico. Será humano. Exigirá pesquisadores capazes de sustentar múltiplas linguagens ao mesmo tempo: a linguagem dos gráficos, a linguagem do corpo e a linguagem do sentido.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “podemos medir a consciência?”, mas outra:

Estamos fazendo perguntas grandes o suficiente para merecer as respostas que buscamos?

Publicações (pós-2021):

  1. Scholkmann, F. (2022). Psychedelics and fNIRS neuroimaging: exploring new opportunities. (Outlook/review) — discute por que fNIRS é promissor em psicodélicos (incl. ayahuasca/DMT) e quais desenhos/controles são críticos.

  2. Tanaka, G. K., et al. (2022). Open monitoring meditation alters the EEG gamma coherence in expert meditators. Consciousness and Cognition, 102, 103354. — exemplo claro de como EEG captura reorganização funcional (coerência/gama) em prática contemplativa; autores com afiliação no Brasil (UFRJ). 

  3. Guevara, E., Mesquita, R. C., & Orihuela-Espina, F. (2025). Emerging panorama of functional near-infrared spectroscopy in Latin America. Neurophotonics. — panorama regional (México/Brasil) que ajuda a situar boas práticas, desafios e maturidade metodológica do fNIRS na América Latina. 

  4. Sugawara, A., et al. (2024). Interoceptive training impacts the neural circuit of interoception… Translational Psychiatry. — mostra que treino interoceptivo altera circuitos relevantes (ponte direta com “locus semântico corporal” / Mente Damasiana).

  5. Duda, A. T., et al. (2024). Mindfulness meditation is associated with global EEG spectral changes in theta, alpha, and beta amplitudes. International Journal of Psychophysiology, 206, 112465. — exemplo de marcadores globais de EEG (teta/alfa/beta) associados a estados meditativos e treino. 

  6. Yücel, M. A., et al. (2025). fNIRS reproducibility varies with data quality, analysis pipelines… Communications Biology. — paper essencial para o seu ponto: fNIRS tem limitações, variabilidade de pipelines e depende de qualidade/controle (perfeito para a seção “por que boas perguntas e bons experimentos importam”).

  7. Koning, E., et al. (2024). Exploring the neurobiological correlates of psilocybin-assisted… (SpringerOpen). — síntese útil sobre correlatos EEG em psicodélicos (ex.: mudanças em bandas como teta e relação com sintomas/efeitos), e ressalta confounds (expectativa, desenho, etc.). 






#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States