Jackson Cionek
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Quando o medo escolhe o futuro - segurança pública, Jiwasa falso e corpo-território vulnerável

Quando o medo escolhe o futuro -  segurança pública, Jiwasa falso e corpo-território vulnerável

Quando a segurança deixa de cuidar e começa a governar pelo medo

A segurança pública é uma necessidade real. Nenhum corpo-território pode florescer onde há extorsão, ameaça, homicídio, desaparecimento, tráfico, abuso policial, milícia, facção, violência doméstica, sequestro, bala perdida, medo de circular ou perda de controle comunitário sobre o território.

Por isso, criticar a política do medo não significa negar a dor das vítimas. Significa perguntar quem usa essa dor, para qual projeto, com qual retorno ao território e com quais consequências para a democracia.

Na América Latina, o medo se tornou uma das principais moedas políticas. Ele aparece em campanhas eleitorais, programas de televisão, redes sociais, discursos religiosos, operações policiais, disputas parlamentares, promessas de “ordem”, pedidos de militarização e justificativas para estados de exceção.

O medo é uma emoção legítima quando nasce da ameaça real. Mas pode se tornar tecnologia de controle quando é organizado, repetido, amplificado e transformado em voto, audiência, obediência ou autorização para violência.

É nesse ponto que precisamos perguntar:

a pauta da segurança está restaurando Jiwasa Real ou produzindo Jiwasa falso?

Jiwasa Real, nesse tema, aparece quando a política pública reduz violência, protege vítimas, fortalece comunidades, restaura circulação, reconstrói confiança, melhora justiça, cuida da juventude, enfrenta economias ilegais e devolve pertencimento ao território.

Jiwasa falso aparece quando o medo mobiliza multidões, mas o corpo-território continua vulnerável. A pessoa sente que algo forte está sendo feito, mas o território não recebe escola, saúde, luz, saneamento, renda, oportunidade, justiça, inteligência pública, prevenção e reparação.

No Jiwasa falso, a segurança vira espetáculo.

No Jiwasa Real, a segurança vira capacidade de viver.

O medo como atalho político

A política do medo é eficiente porque reduz a complexidade. Ela transforma problemas históricos em inimigos visíveis. Em vez de perguntar pelas causas, pede punição imediata. Em vez de perguntar pelo território, pede ocupação. Em vez de perguntar pela economia ilegal, pede guerra. Em vez de perguntar pela infância perdida, pede encarceramento. Em vez de perguntar pela circulação do dinheiro, pede mais armas. Em vez de perguntar pela ausência de Estado, pede mais força de Estado.

Esse atalho emocional tem força eleitoral.

Quando uma população está cansada de sentir medo, ela pode aceitar soluções que prometem ordem rápida, mesmo quando essas soluções não enfrentam a estrutura do problema. É por isso que políticas de “mano dura” ou “linha dura” ganharam força em diferentes países latino-americanos. Pesquisas recentes mostram crescimento do apoio a estratégias punitivas em democracias que antes eram vistas como relativamente seguras, como Chile, Costa Rica, Equador e Uruguai. Um estudo associado à FLACSO e à USACH, noticiado pelo El País, encontrou que 67% dos participantes declaravam sentir medo, e 58% tinham percepção majoritariamente positiva sobre medidas de “mano dura”. (elpais.com)

A questão não é ridicularizar esse medo. O medo é real. A questão é perguntar se a resposta oferecida devolve controle ao corpo-território ou se apenas converte medo em autorização para mais centralização, militarização e controle.

Quando o medo escolhe o futuro, a democracia pode continuar existindo formalmente, mas sua respiração muda. O voto deixa de ser imaginação coletiva e passa a ser pedido de proteção. A política deixa de disputar projeto de vida e passa a disputar quem promete castigo mais convincente.

Segurança sem Tekoha vira ocupação

Tekoha é o lugar onde a vida pode acontecer. Não é apenas área geográfica. É território de pertencimento, circulação, memória, cuidado, reprodução da vida, vínculo e futuro.

Uma política de segurança sem Tekoha olha o mapa, mas não vê o território vivido.

Vê “área de risco”, mas não vê famílias.

Vê “zona dominada”, mas não vê infância.

Vê “ponto de tráfico”, mas não vê a ausência de oportunidades.

Vê “operação”, mas não vê o medo acumulado.

Vê “inimigo”, mas não vê o corpo-território já ferido.

Quando o Estado entra apenas como força, ele pode até interromper uma dinâmica visível de violência, mas não necessariamente reconstrói Tekoha. Sem escola funcionando, sem justiça confiável, sem saúde mental, sem trabalho, sem urbanização, sem cultura, sem esporte, sem proteção de testemunhas, sem inteligência financeira e sem controle de armas e lavagem de dinheiro, o território continua vulnerável.

A militarização pode produzir presença, mas presença não é pertencimento.

A presença armada do Estado não é o mesmo que presença cuidadora do Estado.

Esse é um ponto central para a América Latina. A militarização da política democrática em países como Brasil, Colômbia e México já foi analisada como um processo que vai além da segurança pública, alcançando áreas da política, da administração e da vida institucional. (iconos.flacsoandes.edu.ec)

Quando o militar vira resposta para tudo, a política perde imaginação. O corpo-território passa a ser governado como ameaça ou risco, não como fundamento do Estado.

O crime organizado como falso Estado

O medo cresce também porque, em muitos territórios, o crime organizado não aparece apenas como violência. Ele aparece como governança.

Grupos criminosos controlam mercados, circulação, serviços, punições, dívidas, transportes, festas, conflitos familiares, prisões, bairros, fronteiras, minas, portos, florestas e periferias. Em alguns casos, eles oferecem uma ordem local onde o Estado é ausente, corrupto, fragmentado ou apenas repressivo.

Estudos recentes sobre governança criminal na América Latina mostram que uma parcela expressiva da população relata que grupos criminosos locais fornecem ordem ou reduzem crime. Um artigo de Andrés Uribe, Benjamin Lessing, Noah Schouela e Elayne Stecher estimou que cerca de 14% dos entrevistados na região relatavam algum tipo de governança criminal, o que corresponderia a dezenas de milhões de latino-americanos vivendo sob formas de ordem criminal. (cambridge.org)

Esse dado é decisivo para nossa matriz.

Quando o crime fornece ordem, o problema não é apenas criminal. É civilizatório. Significa que o Estado perdeu a capacidade de produzir Jiwasa Real em certos territórios. Onde o Estado não devolve pertencimento, algum outro grupo pode oferecer pertencimento falso: proteção, identidade, medo, renda, justiça rápida, status ou vingança.

O crime organizado pode funcionar como Jiwasa falso porque oferece grupo, código, proteção e pertencimento, mas cobra com violência, submissão, silêncio, medo e captura do futuro.

O jovem não entra apenas no crime porque é “mau”. Muitas vezes entra porque o território já foi abandonado por formas legítimas de futuro.

O comerciante não paga extorsão porque concorda com o crime. Paga porque precisa continuar vivo.

A família não silencia porque apoia facção. Silencia porque não confia que o Estado consiga protegê-la.

Esse é o ponto: quando o Estado não produz Tekoha, o crime pode produzir uma caricatura de Tekoha.

E essa caricatura é uma forma extrema de Jiwasa falso.

Militarização e espetáculo de controle

A militarização costuma aparecer como resposta rápida porque produz imagem de controle. Tropas nas ruas, blindados, helicópteros, prisões em massa, operações televisionadas, uniformes, sirenes e linguagem de guerra comunicam força. A sensação pública pode ser: “agora alguém está fazendo alguma coisa”.

Mas segurança pública não pode ser medida apenas pela intensidade da imagem.

A pergunta corpo-territorial é: depois da operação, o território respira melhor?

As pessoas circulam com mais liberdade?

As crianças dormem melhor?

As escolas funcionam?

As famílias confiam mais na justiça?

As economias ilegais perderam capacidade financeira?

A polícia investiga melhor?

O homicídio cai sem deslocar violência para outro lugar?

A juventude encontra caminho fora do recrutamento criminal?

A comunidade deixa de ser refém tanto do crime quanto do abuso estatal?

Pesquisas recentes sobre redes criminosas mostram que punições mais severas nem sempre desorganizam o crime de forma linear. Um estudo de 2024 sobre organizações criminosas, usando teoria evolutiva dos jogos, encontrou efeitos de histerese, resiliência e robustez em redes criminais, indicando que estratégias apenas punitivas podem não produzir o resultado esperado se não considerarem adaptação, estrutura de rede e equilíbrio entre segurança e eficiência criminal. (arxiv.org)

Isso não significa defender impunidade. Significa defender inteligência.

O Jiwasa Real da segurança exige força legítima, mas também exige causalidade. Sem causalidade, a força pode virar teatro. E teatro de segurança gera votos, audiência e sensação de ordem, mas não necessariamente devolve o território ao povo.

Quando o medo vira audiência

A mídia também participa da política do medo.

Notícias sobre crime são necessárias. A população precisa saber o que acontece. Mas a repetição de imagens de violência, a dramatização constante, a escolha seletiva de casos, o enquadramento emocional e a falta de análise causal podem transformar segurança pública em mercado de atenção.

O medo prende o olhar.

O medo aumenta clique.

O medo gera compartilhamento.

O medo fideliza audiência.

O medo facilita slogans.

O medo reduz nuances.

O medo produz inimigos.

O medo organiza bolhas.

Quando a cobertura jornalística mostra a violência sem mostrar sua cadeia causal, ela pode produzir Jiwasa falso. O público sente pertencimento pela indignação. Grupos se formam pela raiva. Lideranças ganham palco. Mas o corpo-território afetado continua sem solução.

A pergunta metacognitiva para o leitor é:

esta notícia sobre crime está me ajudando a entender a causa ou apenas treinando meu medo?

Estudos sobre politização em redes sociais no Brasil mostram que temas como crime, drogas e economia podem se deslocar rapidamente para debates políticos, especialmente em períodos eleitorais. Um trabalho de Marcelo Sartori Locatelli, Pedro Calais, Matheus Prado Miranda, João Pedro Junho, Tomas Lacerda Muniz, Wagner Meira Jr. e Virgilio Almeida propôs medir politização por mudanças de tópico em conversas online e encontrou evidências de que assuntos adjacentes, como crime e drogas, tendem a migrar para a política em plataformas como Twitter, YouTube e TikTok. (arxiv.org)

Isso ajuda a compreender como o medo pode virar trilha eleitoral. A notícia começa como fato. Depois vira narrativa. Depois vira identidade. Depois vira voto.

Segurança, voto e captura do futuro

A relação entre crime organizado e política é uma das dimensões mais graves da América Latina contemporânea.

Um estudo de Roxana Gutiérrez-Romero e Nayely Iturbe sobre assassinatos políticos no México argumenta que muitos desses assassinatos são impulsionados por organizações criminosas que buscam influenciar seleção de candidatos, controlar governos locais para extração de renda e retaliar ações estatais. O trabalho analisou assassinatos de candidatos e prefeitos entre 2000 e 2021 e mostra como grupos criminosos tentam capturar governos locais. (arxiv.org)

Aqui o medo deixa de ser apenas emoção social. Ele vira arquitetura de poder.

Quando o medo controla quem pode ser candidato, quem pode votar, quem pode denunciar, quem pode circular e quem pode governar, o corpo-território já não está em democracia plena. Pode haver eleição, mas o território está coagido.

Por isso, segurança pública não é apenas tema policial. É condição de soberania popular.

Sem segurança real, o voto pode virar escolha sob ameaça.

Sem justiça real, a política local pode ser capturada.

Sem proteção territorial, o Estado vira forma vazia.

A pergunta de Jiwasa é direta:

o grupo político que usa a pauta da segurança está devolvendo poder ao corpo-território ou apenas usando o medo do corpo-território para chegar ao poder?

O modelo salvador e o risco do Jiwasa falso

Em toda crise de medo, aparece a figura do salvador.

O salvador promete ordem imediata. Promete acabar com o crime. Promete fazer o que “ninguém teve coragem”. Promete ignorar burocracias, direitos, tribunais, garantias e negociações. Sua força está em parecer mais rápido que a democracia.

Na América Latina, modelos de endurecimento penal e encarceramento em massa ganharam forte visibilidade regional nos últimos anos. O caso de El Salvador, sob Nayib Bukele, tornou-se referência para muitos defensores de medidas duras, porque houve queda expressiva da criminalidade. Ao mesmo tempo, organizações e analistas apontam preocupações com devido processo, prisões em massa, direitos humanos e transferibilidade do modelo para países com dinâmicas criminais diferentes. (theguardian.com)

A análise aqui não deve ser simplista.

É preciso reconhecer que populações submetidas ao crime desejam alívio real. Quando homicídios caem, quando pessoas voltam a circular, quando famílias sentem menos medo, isso tem peso concreto. Mas também é preciso perguntar: qual é o custo institucional, quem é preso sem prova, que poder se concentra, que direitos se tornam suspensos, que modelo se exporta como espetáculo e o que acontece quando o medo legitima a exceção permanente?

Jiwasa falso pode aparecer até quando há resultado imediato.

Porque o Jiwasa falso não é definido apenas pela sensação de alívio. É definido pela ausência de retorno integral ao corpo-território. Se o povo ganha silêncio nas ruas, mas perde controle democrático, devido processo, transparência, proteção contra abuso e capacidade de questionar o Estado, o pertencimento ainda está incompleto.

Segurança sem liberdade pode virar obediência.

Liberdade sem segurança pode virar abandono.

O desafio é produzir Jiwasa Real: segurança com pertencimento, justiça e corpo-território.

O corpo-território vulnerável

O corpo-território vulnerável não é apenas a vítima individual do crime. É o território inteiro colocado em estado de ameaça.

É a mãe que muda o caminho do filho.

É a criança que reconhece tiro pelo som.

É o comerciante que paga duas vezes: imposto ao Estado e extorsão ao crime.

É o professor que dá aula com medo.

É o jovem que vê mais futuro na facção do que na escola.

É a liderança comunitária que não sabe se denuncia ou se cala.

É o policial mal pago, mal treinado e lançado em guerra permanente.

É o indígena ameaçado por garimpo ilegal.

É o quilombo pressionado por grileiros.

É a periferia tratada como suspeita coletiva.

É a cidade que começa a aceitar que viver com medo é normal.

Quando o medo vira normalidade, o corpo-território adoece. O sono muda. A circulação muda. A respiração muda. As relações mudam. A confiança muda. A infância muda. A política muda.

A violência não afeta apenas quem morre. Afeta também quem aprende a viver como se pudesse morrer a qualquer momento.

Por isso, segurança pública precisa ser pensada como saúde territorial.

Sem isso, o Estado continuará tratando a violência como evento policial, não como ruptura de Nerope.

Nerope rompido: segurança como fluxo vital

Nerope pode ser pensado como fluxo vital: a condição mínima para que a vida possa circular, respirar, trabalhar, aprender, dormir, brincar, cuidar e projetar futuro.

Quando há crime, extorsão, ameaça e medo permanente, Nerope é rompido.

Mas quando o Estado responde apenas com força, sem reconstruir o território, Nerope também pode continuar rompido. O corpo deixa de temer apenas o crime e passa a temer também o Estado.

A pergunta não é se o Estado deve agir. Deve.

A pergunta é: que tipo de ação restaura fluxo vital?

Ação que reduz homicídio, mas também reduz arbitrariedade.

Ação que prende criminosos, mas também desmonta lavagem de dinheiro.

Ação que protege fronteiras, mas também protege povos que vivem nelas.

Ação que combate facções, mas também interrompe recrutamento juvenil.

Ação que investiga cadeias econômicas, não apenas prende soldados do crime.

Ação que devolve escola, cultura, energia, saúde e renda ao território.

Ação que reconhece que segurança é também pertencimento.

Segurança pública como Jiwasa Real

Uma política de segurança orientada por Jiwasa Real teria outra pergunta de origem.

Não começaria apenas perguntando: como eliminar o inimigo?

Começaria perguntando: como restaurar a capacidade do território de produzir vida sem medo?

Isso muda prioridades.

A inteligência financeira passa a ser tão importante quanto a operação armada.

A proteção de testemunhas passa a ser tão importante quanto a prisão.

A recuperação de escolas e espaços públicos passa a ser tão importante quanto a presença policial.

A saúde mental passa a ser tão importante quanto a estatística criminal.

A transparência policial passa a ser tão importante quanto a autoridade policial.

A juventude passa a ser vista como futuro a proteger, não como ameaça a neutralizar.

O bioma passa a ser visto como alvo de economias ilegais, não apenas como paisagem.

O corpo-território passa a ser a unidade de avaliação da política pública.

A pergunta não é apenas: o crime caiu?

É também:

a comunidade confia mais?

a circulação melhorou?

a escola respira?

a juventude tem alternativas?

o comércio deixou de ser extorquido?

a polícia é mais legítima?

o medo diminuiu sem aumentar abuso?

o bioma foi protegido?

o território ganhou futuro?

Se a resposta for não, pode haver queda de indicador e ainda assim não haver Jiwasa Real.

Metacognição para o leitor

Diante de qualquer notícia sobre segurança, o leitor pode fazer sete perguntas:

1. Estão me informando ou estão treinando meu medo?

2. A pauta mostra a causa ou apenas o efeito?

3. Quem ganha voto, audiência, orçamento ou poder com essa narrativa?

4. Qual corpo-território vulnerável ficou invisível?

5. A solução proposta restaura Tekoha ou apenas ocupa o território?

6. O medo está produzindo Jiwasa Real ou Jiwasa falso?

7. Que rendimento material, social e territorial volta para a comunidade depois da política de segurança?

Essas perguntas não impedem ação. Pelo contrário: impedem ação cega.

A segurança pública precisa de urgência, mas urgência sem causalidade vira espetáculo.

E espetáculo de segurança é um dos instrumentos mais fortes do Jiwasa falso contemporâneo.

Conclusão: segurança é devolver futuro ao território

Quando o medo escolhe o futuro, a política se estreita.

O eleitor passa a votar por proteção.

A mídia passa a vender urgência.

As plataformas passam a monetizar indignação.

Os governos passam a disputar força.

Os criminosos passam a disputar território.

E o corpo-território vulnerável continua entre dois poderes: o poder ilegal que captura pela ameaça e o poder estatal que muitas vezes chega pela força, mas não permanece pelo cuidado.

A saída não é negar a segurança. É aprofundá-la.

Segurança não é apenas ausência de crime.

Segurança é presença de futuro.

É poder circular sem medo.

É dormir sem sobressalto.

É confiar na justiça.

É ver a juventude com alternativa.

É ter escola aberta.

É ter praça viva.

É ter polícia legítima.

É ter bioma protegido.

É ter Estado que chega antes do crime, não apenas depois.

É ter Nerope restaurado.

É ter Tekoha protegido.

É ter Jiwasa Real.

O medo pode ser sinal de que algo precisa ser cuidado. Mas, quando o medo vira método de governo, ele deixa de proteger e começa a capturar.

Por isso, a pergunta final não é apenas: quem promete mais segurança?

A pergunta é:

quem devolve mais corpo-território ao povo que vive com medo?


Referências comentadas pós-2021

1. Sebastián A. Cutrona. “Conceptualizing Mano Dura in Latin America” - 2025

Sustenta a discussão sobre “mano dura” como conceito amplo e não apenas como slogan eleitoral. O artigo mostra que governos latino-americanos têm adotado diferentes estratégias punitivas para enfrentar gangues, crime organizado e medo social, mas que há pouca clareza conceitual sobre o espectro dessas políticas. Ajuda a fundamentar a análise do medo como atalho político. (cambridge.org)

2. Sebastián A. Cutrona. “Between security and democracy” - 2026

Sustenta a análise do crescimento do apoio social a políticas de “mano dura” em democracias latino-americanas historicamente mais seguras, como Chile, Costa Rica, Equador e Uruguai. Ajuda a mostrar que o medo pode alterar expectativas democráticas e ampliar a aceitação de respostas punitivas. (tandfonline.com)

3. FLACSO / USACH, estudo noticiado pelo El País - 2024

Sustenta a afirmação de que medo, percepção de sofisticação do crime organizado e apoio à “mano dura” cresceram em países como Equador, Costa Rica, Chile e Uruguai. A reportagem informa que 67% dos participantes relataram medo e 58% tinham percepção majoritariamente positiva sobre medidas punitivas. (elpais.com)

4. Lucía Dammert, debate sobre segurança e política na América Latina - 2024/2025

Sustenta a leitura de que crime organizado, medo, dinheiro ilícito, lavagem de capitais e infiltração em economias formais estão remodelando a política regional. Dammert é uma referência latino-americana central em segurança pública, medo e relações Estado-sociedade. (americasquarterly.org)

5. Andrés Uribe, Benjamin Lessing, Noah Schouela e Elayne Stecher. “Criminal Governance in Latin America: Prevalence and Correlates” - 2025

Sustenta a ideia de que o crime organizado pode funcionar como forma de governança local. O artigo estima que cerca de 14% dos respondentes relatam que grupos criminosos locais fornecem ordem ou reduzem crime, o que corresponde a dezenas de milhões de latino-americanos vivendo sob algum grau de governança criminal. (cambridge.org)

6. María Angélica Suárez. “Transnational Organized Crime and Hybrid Governance in Latin America” - 2025

Sustenta a noção de governança híbrida e de atores armados não estatais com capacidade de governar territórios, mercados e populações. Ajuda a mostrar que o crime organizado não é apenas desvio criminal, mas pode disputar funções de Estado em territórios vulneráveis. (mecila.net)

7. Roxana Gutiérrez-Romero e Nayely Iturbe. “Causes and Electoral Consequences of Political Assassinations: The Role of Organized Crime in Mexico” - 2024

Sustenta a conexão entre crime organizado, eleições e captura de governos locais. O estudo argumenta que assassinatos políticos no México são frequentemente impulsionados por organizações criminosas que buscam influenciar seleção de candidatos, controlar governos locais e retaliar ações estatais. (arxiv.org)

8. Javier Pérez Sandoval. “The Persistence of Latin America’s Violent Democracies” - 2023

Sustenta a discussão sobre democracias latino-americanas atravessadas por violência, militarização estatal e atores armados não estatais. Ajuda a mostrar que eleições e instituições formais podem coexistir com territórios governados pelo medo. (ora.ox.ac.uk)

9. “La militarización de la política democrática en América Latina” - Íconos / FLACSO - 2026

Sustenta a análise de que a militarização na América Latina não se limita à segurança pública, mas alcança áreas mais amplas da política democrática, administração e vida institucional. Ajuda a diferenciar presença estatal de presença cuidadora. (iconos.flacsoandes.edu.ec)

10. Casper van Elteren, Vítor V. Vasconcelos e Mike Lees. “Criminal organizations exhibit hysteresis, resilience, and robustness by balancing security and efficiency” - 2024

Sustenta a crítica a respostas puramente punitivas. O estudo mostra que organizações criminosas podem apresentar histerese, resiliência e robustez, desafiando a ideia de que punição mais dura sempre desorganiza o crime de forma linear. (arxiv.org)

11. Marcelo Sartori Locatelli, Pedro Calais, Matheus Prado Miranda, João Pedro Junho, Tomas Lacerda Muniz, Wagner Meira Jr. e Virgilio Almeida. “Topic Shifts as a Proxy for Assessing Politicization in Social Media” - 2023

Sustenta a análise de como temas como crime, drogas e economia podem migrar para debates políticos em redes sociais, especialmente em períodos eleitorais. É útil para discutir como medo e segurança viram trilha de politização, engajamento e disputa de narrativa. (arxiv.org)

12. Banco Interamericano de Desenvolvimento / Reuters, aliança regional contra crime organizado - 2024

Sustenta a dimensão regional do problema. A Reuters noticiou que 16 governos latino-americanos e caribenhos, com apoio do BID e outras instituições, lançaram uma aliança contra o crime organizado; o BID estimou que o crime custa em média 3,4% do PIB regional. Isso reforça que segurança pública é também tema econômico, institucional e de desenvolvimento territorial. (reuters.com)

Esse texto mantém a linha da série: segurança pública não deve ser lida apenas como combate ao crime, mas como disputa entre Jiwasa falso, que usa medo para controle, e Jiwasa Real, que devolve Tekoha, Nerope e futuro ao corpo-território.







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Jackson Cionek

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