O corpo que pratica não continua sendo o mesmo corpo
O corpo que pratica não continua sendo o mesmo corpo
Quando imitar, repetir e confiar em um movimento pode construir excelência — ou aprisionar um Corpo-Território no movimento que aprendeu a ser
Imagine duas mãos sobre um piano.
A direita toca uma sequência. A esquerda executa outra. As duas fazem parte da mesma música, mas precisam cooperar sem deixar de ser diferentes.
Para um pianista experiente, isso faz parte de uma história construída por milhares de repetições: escalas, acordes, erros e correções.
Em 2026, Tatsuya Kato e colegas publicaram na iScience um estudo sobre como essa longa prática bimanual se associa à interação sensorial entre as duas mãos.
A pergunta pode ser reduzida a algo simples:
uma mão pode mudar aquilo que percebemos com a outra?
E, se isso acontece:
anos de piano modificam essa relação?
Uma mão pode interferir na outra
Imagine uma pessoa destra.
Sua mão direita é dominante. A esquerda é não dominante.
Queremos descobrir o que acontece com a percepção da mão esquerda quando a direita também se movimenta. Depois fazemos o contrário.
Kato e colegas compararam pianistas especialistas com não músicos.
Utilizaram um equipamento robótico capaz de movimentar passivamente os dedos enquanto o EEG registrava as respostas cerebrais. Também aplicaram estímulos elétricos aos nervos das mãos em intervalos controlados para observar se a informação sensorial de uma mão modificava o processamento da outra.
Por fim, os participantes realizaram uma tarefa perceptiva: quando uma mão se movia, ficava mais difícil perceber corretamente o que acontecia com a outra?
A pergunta era quase:
direita interfere na esquerda?
esquerda interfere na direita?
e isso é igual em pianistas e não músicos?
Nos não músicos apareceu uma assimetria relativamente consistente.
De forma simplificada, a mão dominante interferia mais no processamento relacionado à mão não dominante.
Em uma pessoa destra:
a direita influenciava mais a esquerda do que a esquerda influenciava a direita.
Isso é o que significa uma assimetria direcional: o efeito de A sobre B não é igual ao efeito de B sobre A.
Não significa que uma mão “comanda” a outra, apenas que havia uma direção predominante na interação.
Nos pianistas, a história foi diferente.
Os pesquisadores não encontraram evidência consistente, no nível do grupo, daquela mesma assimetria nas respostas somatossensoriais iniciais. Na tarefa perceptiva, uma mão interferia na percepção da outra nas duas direções.
De maneira didática:
não músicos: mão dominante → mão não dominante
pianistas: mão direita ↔ mão esquerda
Essa representação é apenas didática. O estudo não mostra que pianistas “sentem melhor”, nem prova que o treinamento musical seja a única causa das diferenças.
O resultado é mais específico:
corpos com histórias muito diferentes de uso das duas mãos apresentaram padrões diferentes na forma como essas informações interagiam.
E é aqui que começa nossa pergunta.
Onde ficaram todas aquelas horas de piano?
Imagine um pianista que praticou durante vinte anos.
Depois do treino, ele fecha o piano e vai embora.
Onde ficaram aquelas horas?
Elas não ficaram armazenadas como “horas”, mas algo daquela história permanece.
Os dedos aprenderam distâncias, forças, tempos, sequências e relações entre uma mão e outra. Movimentos que antes exigiam enorme atenção passaram a fazer parte de um repertório disponível.
A experiência participou da construção do corpo que encontrará a próxima experiência.
É aqui que encontramos uma das ideias centrais da BrainLatam.
Yãy hã mĩy Estendido: imitar para aprender a ser — e perceber para poder transcender
Na formulação BrainLatam, chamamos de Yãy hã mĩy Estendido uma hipótese sobre um processo fundamental da aprendizagem humana:
imitamos.
Depois repetimos.
A repetição pode formar hábito.
O hábito pode formar costume.
O costume pode participar da construção de crenças.
E aquilo que foi repetido suficientemente pode adquirir uma forma de confiança incorporada.
Chamamos isso, operacionalmente, de fé corporal.
O pianista iniciante observa, tenta reproduzir, erra, corrige e repete até que um movimento antes pensado passo a passo passa a exigir muito menos esforço consciente.
O corpo passou a confiar naquele repertório.
Essa confiança é necessária. Mas aquilo que constrói eficiência também pode construir uma fronteira.
O ótimo local da fé cega
Imagine uma solução que funciona muito bem.
Talvez não seja perfeita. Talvez nem seja a melhor possível.
Mas funciona suficientemente bem para que o organismo pare de procurar alternativas.
Metaforicamente, podemos chamá-la de um ótimo local.
O problema começa quando:
“este movimento funciona”
se transforma em:
“este é o único movimento possível.”
A técnica vira dogma.
O hábito vira identidade.
A crença deixa de ser uma ferramenta e passa a definir aquilo que o Corpo-Território acredita ser.
É nesse sentido que falamos de fé cega.
Ela pode ser um repertório que funcionou tão bem, durante tanto tempo, que deixou de existir motivo para procurar outro.
Oferece previsibilidade e pertencimento, mas também pode estreitar aquilo que percebemos como possível.
Metacognição: usar a história sem ficar preso a ela
Talvez alto desempenho não seja apenas executar perfeitamente aquilo que aprendemos, mas conseguir perceber o próprio repertório, usá-lo, questioná-lo e, quando o território muda, construir outro movimento.
Aqui aparece a segunda metade do Yãy hã mĩy Estendido:
imitar-se SER para transcender-se SER.
Primeiro imitamos para construir um corpo capaz de fazer.
Depois precisamos perceber aquilo que foi incorporado para não ficarmos aprisionados pelo corpo que aprendemos a ser.
A Metacognição não precisa destruir hábito, crença ou fé. Pode permitir que o organismo utilize sua história sem ser inteiramente definido por ela.
O pianista não precisa abandonar as escalas que aprendeu, mas usá-las sem acreditar que toda música possível já está contida nelas.
Do piano ao Corpo-Território
Um jovem não imita apenas movimentos musicais.
Imita maneiras de falar, trabalhar, cooperar, reagir ao medo, reconhecer autoridade e pertencer.
Repetições constroem hábitos. Hábitos participam de crenças. E crenças podem construir movimentos que parecem naturais porque foram incorporados antes de começarmos a questioná-los.
Por isso, Corpo-Território é também um corpo que carrega histórias de relações, práticas e possibilidades aprendidas.
E onde entra Tekoha?
Tekoha não é um conceito criado pela neurociência.
Sua origem está em territorialidades e cosmologias Guarani, nas quais território não é apenas extensão física, mas espaço de vida, relações, pertencimento e modo de existir.
A BrainLatam não propõe transformar Tekoha em marcador neural. Nossa extensão operacional pergunta:
quanto do território vivido continua participando da maneira como um Corpo-Território percebe e age quando aquele território já não está diante dele?
O piano pode estar fechado, mas algo daquela relação permanece. Uma comunidade pode estar distante, mas linguagem, hábitos, crenças, técnicas e formas de cooperação podem continuar presentes.
É nesse sentido que perguntamos se parte do Tekoha vivido permanece incorporada como história de possibilidades.
A pergunta latino-americana
Essa questão ganha enorme força na América Latina.
Nossa região possui conhecimentos corporais produzidos na universidade, na família, na floresta, no campo, na comunidade, na oralidade e na observação.
A pergunta não deveria ser qual deles possui o “melhor cérebro”, mas:
que diferentes Corpos-Territórios foram construídos por diferentes histórias de prática?
E existe uma questão social.
Dois jovens podem ter potenciais semelhantes. Um possui instrumento, professor, tempo, alimentação, segurança e espaço para errar. O outro não.
Vinte anos depois, talvez chamemos toda a diferença entre seus repertórios de “talento individual”.
Mas quanto daquele talento também foi território?
Onde termina o artigo e começa a BrainLatam
Kato e colegas encontraram padrões diferentes de interação somatossensorial entre pianistas especialistas e não músicos.
Até aqui:
Kato e colegas.
O estudo não mediu Yãy hã mĩy, Tekoha ou Corpo-Território.
A partir daqui:
BrainLatam.
Nossa pergunta é:
se repetir movimentos durante anos participa da construção da forma como um organismo sente e coordena suas mãos, que outras imitações, hábitos, crenças e formas de fé também podem permanecer incorporadas em um Corpo-Território?
E outra:
quando aquilo que incorporamos nos leva à excelência — e quando nos prende a um ótimo local que já não conseguimos perceber como apenas uma possibilidade entre outras?
Talvez aprender seja incorporar um movimento. E talvez alta performance comece quando conseguimos usá-lo sem ficarmos aprisionados pelo corpo que aprendemos a ser.
Neuro Desafio Latam
Pense em alguma coisa que hoje você faz quase sem pensar.
Você ainda consegue perceber que aquilo é um movimento aprendido — e imaginar uma maneira diferente de fazê-lo?
Referência científica
Kato, T., Hirano, M., Shiotani, S., & Furuya, S. (2026). Distinct directional patterns of somatosensory interhemispheric interactions in expert pianists and nonmusicians. iScience, 29(8), 116699. https://doi.org/10.1016/j.isci.2026.116699