Jackson Cionek
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Jiwasa – Aprendendo e Ensinando num Eu Coletivo

Jiwasa – Aprendendo e Ensinando num Eu Coletivo

Quando falamos em Jiwasa, estamos falando de algo que professores, artistas, atletas e educadores já conhecem na prática, mesmo sem usar esse nome: o momento em que um grupo inteiro passa a funcionar como se fosse um só corpo, aprendendo e ensinando ao mesmo tempo. Não é obediência cega, nem disciplina rígida. É coordenação viva. É quando o coletivo entra em acordo sem precisar de ordens explícitas.

Livros como A maravilha dos sistemas complexos (Giorgio Parisi) e O despertar de tudo mostram algo fundamental: os coletivos mais adaptativos não são os mais hierárquicos, mas aqueles em que a liderança é móvel, contextual e, muitas vezes, “de mentirinha”. Quem conduz muda conforme a tarefa, o conhecimento necessário e o momento. A liberdade é real; a chefia, provisória. O Jiwasa nasce exatamente aí.


Jiwasa na prática cotidiana

Em sala de aula, isso acontece quando:

  • a turma inteira fica em silêncio espontâneo antes de uma explicação importante;

  • alunos começam a resolver um problema juntos, sem alguém mandar;

  • o professor percebe que pode “soltar” o controle porque o grupo está engajado.

Em atividades corporais, vemos isso claramente:

  • no nado sincronizado, quando atletas permanecem longos períodos em total coordenação;

  • em danças coletivas, onde o grupo respira junto sem perceber;

  • em percussões fortes, como baterias ou colunas militares, onde o ritmo externo organiza o corpo interno.

O que a ciência recente mostra é que isso não é apenas simbólico ou cultural. O corpo do grupo realmente entra em um mesmo estado fisiológico.


Respiração sincronizada: o segredo do tempo longo

Muitos estudos em hyperscanning (medições simultâneas de vários cérebros e corpos) mostraram sincronizações que duram 3 a 12 segundos. Esse intervalo aparece com frequência em interações sociais espontâneas, jogos, conversas e tarefas colaborativas.

Mas há algo importante:
esse tempo pode ser muito maior quando a tarefa envolve respiração sincronizada ou ritmos externos fortes.

Exemplos claros:

  • nadadores sincronizados ficam coordenados por dezenas de segundos;

  • percussionistas mantêm acoplamento por minutos;

  • colunas de exército marcham longos períodos em uníssono.

A diferença não está só na atenção ou na intenção. Está no corpo.


O que acontece no corpo do grupo (explicado de forma simples)

Quando o grupo entra em uma retenção respiratória sincronizada — seja segurando o ar, seja reduzindo a respiração naturalmente — ocorrem mudanças mensuráveis no sistema nervoso autônomo de todos.

Duas delas aparecem com frequência em estudos científicos:

↓ RMSSD

↓ HF power

Esses nomes parecem técnicos, mas a ideia é simples.

O RMSSD mede o quanto os batimentos cardíacos variam rapidamente, batimento a batimento.

  • Quando o RMSSD é alto, cada pessoa está se regulando de forma mais livre, com variações próprias.

  • Quando o RMSSD cai (↓ RMSSD), o coração entra em um ritmo mais estável e previsível.

O HF power está ligado diretamente à respiração espontânea.

  • HF alto significa respiração livre, cada um no seu tempo.

  • HF baixo (↓ HF power) indica que a respiração diminuiu, pausou ou ficou temporariamente controlada.

Quando ↓ RMSSD e ↓ HF power acontecem ao mesmo tempo em várias pessoas, isso mostra que:

  • não é apenas um indivíduo se regulando,

  • o grupo inteiro entrou no mesmo estado fisiológico.

Em outras palavras:

o coletivo “segurou” o sistema junto.

Isso não é estresse nem perda de controle. É coordenação funcional.


EDR: quando o coração “sente” a respiração do grupo

Mesmo sem medir diretamente o ar entrando e saindo dos pulmões, a ciência consegue detectar essas pausas coletivas usando algo chamado EDR (ECG-Derived Respiration).

O EDR usa pequenas variações no sinal do coração para inferir o ritmo respiratório. Com isso, estudos mostram que em coletivos bem coordenados aparecem:

  • interrupções simultâneas da respiração;

  • platôs temporais alinhados entre os participantes;

  • retomadas respiratórias quase no mesmo instante.

Ou seja:
o ECG “percebe” que o grupo prendeu o ar junto.

Em termos simples: o coração denuncia o Jiwasa.


Jiwasa, liberdade e liderança “de mentirinha”

Aqui entra o ponto mais importante para a educação.

Mesmo quando o Jiwasa se mantém por longos períodos, como no nado sincronizado ou na percussão forte, o bom desempenho do coletivo depende da liberdade interna.

Se alguém tenta mandar o tempo todo:

  • o grupo fica rígido;

  • a variabilidade some de vez;

  • o sistema cansa e quebra.

Nos coletivos saudáveis:

  • a liderança circula;

  • cada um ensina algo em um momento;

  • em outro momento, aprende;

  • o sincronismo se aprofunda e depois se solta.

É exatamente isso que Parisi descreve nos sistemas complexos: ordem sem autoritarismo.
E o que O despertar de tudo mostra nas sociedades humanas: coordenação sem chefes fixos.


Exemplos claros para a sala de aula

Exemplo 1 – Explicação difícil
Antes de um conceito complexo, o professor faz uma pausa, olha a turma e respira fundo. A sala inteira fica em silêncio. Muitos alunos prendem o ar sem perceber.
Jiwasa fisiológico aparece antes do aprendizado.

Exemplo 2 – Trabalho em grupo
Durante uma resolução coletiva no quadro, o grupo fica altamente focado por alguns segundos, depois conversa, depois volta ao foco.
sincroniza → solta → sincroniza novamente.

Exemplo 3 – Aula com movimento
Uma atividade rítmica, batidas de palma ou passos simples alinham respiração e atenção. O grupo aprende mais rápido e com menos conflito.


O ponto central

O Jiwasa não é um estado fixo.
Ele é um regime dinâmico:

  • às vezes dura poucos segundos;

  • às vezes se estende por muito tempo;

  • depende da respiração;

  • depende do ritmo;

  • depende da liberdade real do grupo.

Aprender e ensinar, nesse contexto, deixam de ser papéis fixos.
Passam a ser funções que circulam dentro do Eu Coletivo.

Quando isso acontece:

  • o corpo aprende junto;

  • a mente acompanha;

  • e o coletivo se torna mais adaptativo, criativo e humano.


Referências (pós-2020)

  1. Leiva-Cisterna, I., Barraza, P., Rodríguez, E., & Dumas, G. (2025). Sensory multi-brain stimulation enhances dyadic cooperative behavior. Social Cognitive and Affective Neuroscience.

  2. Liu, S. et al. (2024). Parenting links to parent–child interbrain synchrony. Cerebral Cortex.

  3. Lim, M. et al. (2024). Culture, sex and social context influence brain-to-brain synchrony. BMC Psychology.

  4. Zhang, M. et al. (2024). Neural mechanisms of cooperative problem-solving. NeuroImage.

  5. Balconi, M., & Vanutelli, M. E. (2023). Interoceptive hyperscanning and dyadic synchrony. Scientific Reports.

  6. Schwartz, L. et al. (2025). Empathy aligns brains in synchrony. iScience.

  7. Müller, V., & Lindenberger, U. (2024). Hyper-brain network dynamics in music. Frontiers in Human Neuroscience.

  8. Nazneen, T. et al. (2022). Systematic review of brain-to-brain synchrony. Frontiers in Computational Neuroscience.







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New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States