Jackson Cionek
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Eus Tensionais no Festival

Eus Tensionais no Festival

Alostase, percepção e preparação para agir

Uma mãe acompanha a apresentação da filha. Um jurado observa a execução técnica. Um bailarino reconhece a dificuldade de um salto. Um professor procura escolhas pedagógicas. Um turista, sem conhecer os códigos daquela modalidade, deixa-se conduzir pela música, pelas luzes e pela reação da plateia.

Todos estão diante da mesma coreografia, mas não necessariamente percebem o mesmo acontecimento.

Cada pessoa chega ao Festival de Dança de Joinville com expectativas, vínculos, memórias, responsabilidades e estados corporais diferentes. Essas configurações podem modular a atenção, a respiração, o tônus muscular, a frequência cardíaca e a percepção de risco.

A pergunta que orienta este blog é:

Como o Eu Tensional ativo modifica aquilo que cada pessoa consegue perceber, sentir e fazer diante da dança?

O que é um Eu Tensional?

O Eu Tensional é uma hipótese BrainLatam para descrever a configuração corporal, afetiva, cognitiva e relacional que se forma diante de uma situação significativa.

Ele não é uma personalidade fixa, um diagnóstico ou uma emoção isolada. É um estado temporário formado pela relação entre:

  • condições atuais do corpo;

  • memórias e experiências anteriores;

  • expectativas sobre o que acontecerá;

  • vínculos com as pessoas presentes;

  • papéis sociais;

  • possibilidades percebidas de ação.

Uma mãe pode começar a apresentação apreensiva e terminar aliviada. Um jurado pode abandonar momentaneamente a análise técnica e ser surpreendido pela obra. Um bailarino pode sentir seu próprio corpo antecipar um movimento que está apenas observando.

Na formulação da BrainLatam, os Eus Tensionais se reorganizam continuamente conforme corpo, ambiente, linguagem e pertencimento modificam o campo da experiência. O conceito é apresentado como uma hipótese de investigação em primeira pessoa, e não como uma estrutura cerebral já comprovada. (brainlatam)

Homeostase e alostase

A homeostase corresponde à manutenção de condições corporais compatíveis com a vida. Temperatura, hidratação, disponibilidade de energia e oxigenação precisam permanecer dentro de determinadas faixas.

A alostase amplia essa compreensão ao mostrar que o organismo não apenas corrige desequilíbrios: ele também antecipa necessidades.

Antes que um movimento decisivo aconteça, o corpo já pode estar se preparando.

A mãe conhece a sequência e antecipa a aterrissagem.
O jurado procura critérios técnicos.
O bailarino reconhece a preparação motora necessária.
O professor busca elementos que possam ser ensinados.
O turista tenta compreender a cena pelas reações das pessoas ao redor.

Pesquisadores latino-americanos liderados por Joaquín Migeot descrevem a alostase como regulação preditiva produzida na relação entre cérebro, corpo e ambiente. O trabalho também mostra que condições sociais, culturais e ambientais participam da formação das respostas corporais ao longo da vida. (PMC)

Isso agrega ao conceito de Eu Tensional uma dimensão fundamental: a pessoa não começa a perceber quando entra no teatro. Ela leva consigo uma história corporal.

Perceber também é preparar-se para agir

A percepção não é apenas o registro de sons, imagens e movimentos. Ela também organiza possibilidades de ação.

Quem acredita que precisa proteger alguém procura sinais de risco. Quem precisa avaliar procura precisão. Quem deseja aprender acompanha detalhes técnicos. Quem chega pela primeira vez pode perceber principalmente ritmo, intensidade, beleza ou estranhamento.

Em um estudo sobre antecipação de rejeição social, Migeot e colaboradores observaram relações entre expectativas socialmente significativas, interocepção e preparação alostática. A pesquisa não foi realizada em um festival de dança, mas contribui para compreender que o corpo pode antecipar acontecimentos antes de seu desfecho. (PMC)

Assim, o mesmo salto pode aparecer como:

  • risco para uma mãe;

  • critério de avaliação para um jurado;

  • desafio motor para um bailarino;

  • possibilidade pedagógica para um professor;

  • surpresa estética para um turista.

O movimento possui materialidade própria, mas aquilo que ganha relevância depende da configuração ativa do Corpo-Território.

Papel–Pedra–Tesoura

Na BrainLatam, Papel–Pedra–Tesoura é uma metáfora lúdica para investigar diferentes maneiras de perceber, pensar e agir.

Ela dialoga com a distinção entre pensamento rápido e pensamento devagar popularizada por Daniel Kahneman, mas acrescenta um terceiro movimento: o Papel.

Não se trata de três tipos de pessoas nem de três regiões cerebrais que funcionariam isoladamente. São modos funcionais que podem alternar-se rapidamente dentro da mesma experiência.

Pedra: rapidez, hábito e execução

A Pedra representa o modo rápido, automático e sensório-motor.

Ela aparece quando uma pessoa reconhece imediatamente um padrão, executa algo que já aprendeu ou reage antes de realizar uma análise detalhada.

No Festival, a Pedra pode surgir quando:

  • a mãe prende a respiração antes da queda;

  • o bailarino reconhece instantaneamente um erro de apoio;

  • o público começa a aplaudir junto;

  • alguém ajusta a própria postura ao observar um salto.

A Pedra não é inferior. Ela permite velocidade, habilidade e eficiência. O risco aparece quando se transforma em piloto automático, impedindo a percepção de novas possibilidades.

Tesoura: análise, recorte e planejamento

A Tesoura representa o modo mais lento, deliberado e analítico.

Ela recorta a experiência em partes, compara informações, classifica e organiza decisões.

O jurado pode utilizar a Tesoura para observar alinhamento, ritmo e execução. O professor pode comparar estratégias de ensino. O bailarino pode analisar como determinada transição foi construída.

A Tesoura permite método e pensamento crítico. Seu risco aparece quando o recorte se torna tão rígido que a pessoa perde a experiência como totalidade.

O pesquisador brasileiro Samuel Bellini-Leite propõe uma atualização das teorias de processamento dual, relacionando os processos rápidos à cognição incorporada e preditiva e os processos deliberados ao tratamento simbólico. Essa referência acrescenta rigor ao diálogo com Kahneman e evita tratar rapidez e lentidão como dois “botões” cerebrais completamente separados. (Frontiers)

Papel: fruição e metacognição

O Papel é a ampliação proposta pela BrainLatam.

Ele representa atenção mais ampla, fruição, criatividade, percepção corporal e metacognição: a capacidade de perceber o próprio estado enquanto a experiência acontece.

No modo Papel:

  • a mãe pode reconhecer sua apreensão sem ser dominada por ela;

  • o jurado pode manter o critério técnico sem perder a potência da obra;

  • o bailarino pode perceber a resposta do próprio corpo;

  • o turista pode acolher o desconhecido sem precisar classificá-lo imediatamente.

Papel não significa passividade nem pensamento positivo. Significa criar espaço para perguntar:

O que meu corpo está fazendo agora?
Qual expectativa está organizando minha atenção?
Estou apenas repetindo uma resposta conhecida?
Outra percepção ou ação tornou-se possível?

O psicólogo mexicano Rogelio Puente-Díaz mostra que sentimentos metacognitivos participam da avaliação e da escolha de ideias durante processos criativos. Seu trabalho não valida diretamente o modelo BrainLatam, mas contribui para compreender como perceber o próprio processo pode orientar criatividade, avaliação e decisão. (PMC)

A BrainLatam sintetiza os três modos da seguinte maneira:

Pedra executa.
Tesoura analisa.
Papel percebe, integra e transforma.

A riqueza do jogo está na alternância. Nenhum modo vence sempre e nenhum deles é suficiente para todas as situações. (brainlatam)

Escutar com o corpo

A antropóloga brasileira Erica Giesbrecht, ao pesquisar uma cena de dança do ventre em São Paulo, mostra que a escuta musical envolve o corpo como um todo. A sensibilidade se desenvolve por meio da prática e dentro de territórios culturais específicos. (Revistas USP)

Essa contribuição amplia a compreensão do Eu Tensional: perceber dança não é apenas processar sons e imagens. É mobilizar conhecimentos corporais aprendidos.

Um bailarino treinado pode perceber a distribuição de peso antes do salto. Um professor pode reconhecer a preparação técnica. Um espectador sem treinamento talvez não identifique esses detalhes, mas pode perceber intensidade, proximidade, beleza ou desconforto.

Não existe uma única forma correta de ser atravessado pela dança.

O corpo é histórico e territorial

A arqueóloga argentina Mariana Fabra e seus colaboradores estudaram um sepultamento de aproximadamente quatro mil anos por meio de uma perspectiva osteobiográfica. Em vez de compreender o corpo apenas como estrutura biológica, o trabalho articulou dimensões biológicas, sociais e políticas. (Cambridge University Press)

Essa referência agrega ao blog o princípio de que nenhum corpo existe fora de suas relações, materialidades e histórias.

O intelectual indígena brasileiro Ailton Krenak também questiona a separação entre humanidade, território e demais formas de vida. Em Futuro ancestral, o corpo aparece integrado a lugares, comunidades, rios, memórias e ritmos coletivos. (Companhia das Letras)

Krenak não deve ser reduzido a uma explicação neurobiológica. Sua contribuição filosófica e territorial possui autonomia própria e lembra à ciência que o Corpo-Território é maior do que aquilo que um sensor consegue registrar.

Como pesquisar os Eus Tensionais no Festival?

Uma pesquisa sobre Eus Tensionais poderia combinar contexto, medidas corporais e experiência em primeira pessoa.

Antes da apresentação, seria possível conhecer:

  • a relação da pessoa com os artistas;

  • sua familiaridade com a modalidade;

  • suas expectativas;

  • seu estado de cansaço ou desconforto;

  • a função que ocupa naquele momento.

Durante a obra, mediante consentimento, poderiam ser observadas alterações na respiração, frequência cardíaca, postura, direção do olhar e micromovimentos.

Depois da apresentação, cada pessoa poderia relatar:

  • o que chamou sua atenção;

  • quando sentiu maior mobilização;

  • quais lembranças surgiram;

  • se teve vontade de se mover;

  • quais momentos pareceram arriscados, belos ou familiares.

Os dados fisiológicos não deveriam ser utilizados como detectores de emoções.

Um coração acelerado não significa necessariamente medo. Pode acompanhar entusiasmo, atenção, vínculo afetivo ou preparação para agir. Respiração, tônus muscular e frequência cardíaca precisam ser interpretados junto ao contexto e ao relato da pessoa.

A trajetória investigada seria:

contexto → previsão → alteração corporal → percepção → escolha.

Quando o Eu Tensional encontra a dança

O Eu Tensional modifica a percepção porque organiza prioridades. No entanto, ele também pode ser transformado pela obra.

A mãe pode recuperar confiança.
O jurado pode ser surpreendido para além dos critérios.
O bailarino pode descobrir uma nova possibilidade motora.
O professor pode rever sua prática.
O turista pode encontrar pertencimento em uma linguagem desconhecida.

Durante uma única apresentação, a mesma pessoa pode alternar entre Pedra, Tesoura e Papel: reagir rapidamente, analisar o movimento e, depois, perceber como aquela experiência está reorganizando seu Corpo-Território.

A coreografia não acontece somente no palco. Ela encontra corpos preparados por diferentes histórias e modifica aquilo que cada pessoa percebe, sente e acredita ser capaz de fazer.

Talvez seja nesse encontro que assistir deixe de ser somente observar.


Referências e contribuição para o blog

BELLINI-LEITE, Samuel C. Dual Process Theory: Embodied and Predictive; Symbolic and Classical. Frontiers in Psychology, v. 13, 2022. DOI: 10.3389/fpsyg.2022.805386.
Contribuição: atualiza o debate sobre pensamento rápido e devagar e evita tratá-los como sistemas cerebrais completamente isolados. Sustenta uma leitura dinâmica, incorporada e preditiva dos modos Pedra e Tesoura. (Frontiers)

BRAINLATAM; CIONEK, Jackson. Neuro Epigenetics na Convolução Vital — comparação dos conectomas Tesoura e Pedra com Rápido e Devagar, de Daniel Kahneman. 2024.
Contribuição: apresenta a aproximação inicial entre a metáfora Papel–Pedra–Tesoura e os processos rápido e deliberado, situando o modelo dentro da proposta pedagógica BrainLatam. (brainlatam)

BRAINLATAM; CIONEK, Jackson. Festival de Dança Joinville — Quando o Corpo Dança, o Espírito se Reconfigura. 2025.
Contribuição: relaciona o Festival, o Corpo-Território e os Eus Tensionais, oferecendo a base conceitual BrainLatam para investigar como linguagem, pertencimento e experiência corporal se reorganizam durante a dança. (brainlatam)

BRAINLATAM; CIONEK, Jackson. Qual é sua pergunta? — Avatares Neurocientíficos Referenciais. 2026.
Contribuição: apresenta a formulação mais recente do modelo: Pedra como execução rápida, Tesoura como análise deliberada e Papel como fruição com metacognição. (brainlatam)

FABRA, Mariana et al. A Human Body, a Necklace, a Pestle, and a Stone Axe: An Osteobiographical Perspective of a 4,000-Year-Old Burial in Calamuchita Valley, Córdoba, Argentina. Latin American Antiquity, v. 34, n. 2, p. 349–365, 2023. DOI: 10.1017/laq.2022.39.
Contribuição: demonstra como a arqueologia pode compreender o corpo pela integração de dimensões biológicas, sociais, materiais e políticas. (Cambridge University Press)

GIESBRECHT, Erica. Escutando com o corpo: sensibilidade, música e corpo numa cena local de dança do ventre. Revista de Antropologia, v. 65, n. 2, 2023. DOI: 10.11606/1678-9857.ra.2022.198224.
Contribuição: fundamenta a percepção musical como experiência corporal, culturalmente aprendida e situada em um território específico. (Revistas USP)

KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Contribuição: amplia a noção de Corpo-Território ao questionar a separação entre indivíduo, comunidade, ambiente e demais formas de vida. (Companhia das Letras)

MIGEOT, Joaquín et al. Allostatic-interoceptive anticipation of social rejection. NeuroImage, v. 276, 2023. DOI: 10.1016/j.neuroimage.2023.120200.
Contribuição: oferece base para compreender como expectativas socialmente significativas podem mobilizar antecipações corporais e interoceptivas. (PMC)

MIGEOT, Joaquín et al. Allostasis, health, and development in Latin America. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 162, 2024. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2024.105697.
Contribuição: sustenta a discussão sobre alostase e demonstra por que cérebro, corpo, ambiente, desenvolvimento e condições sociais devem ser estudados conjuntamente. (PMC)

PUENTE-DÍAZ, Rogelio. Metacognitive Feelings as a Source of Information for the Creative Process: A Conceptual Exploration. Journal of Intelligence, v. 11, n. 3, 2023.
Contribuição: ajuda a relacionar o modo Papel à percepção e à regulação dos próprios processos criativos, sem afirmar que o artigo comprova diretamente o modelo BrainLatam. (PMC)

Referência conceitual anterior a 2021

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar.
Contribuição: oferece o antecedente conceitual utilizado pela BrainLatam para aproximar a Pedra do pensamento rápido e a Tesoura do pensamento deliberado. O Papel constitui a ampliação lúdica e metacognitiva proposta pela BrainLatam.

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States