Jackson Cionek
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Economia do Corpo-Território - Drex Cidadão, carbono e abundância territorial

Economia do Corpo-Território -  Drex Cidadão, carbono e abundância territorial

Quando o dinheiro nasce da vida, e não apenas da dívida

Vamos imaginar duas regiões.

Na primeira, a vegetação nativa permanece em pé. A água infiltra no solo, as nascentes resistem, o calor é amortecido, espécies continuam circulando e famílias dedicam tempo e trabalho à preservação.

Na segunda, a cobertura original desapareceu. A produção agrícola gera renda, empregos e exportações, mas parte do ganho depende de serviços ecológicos que deixaram de existir ou foram transferidos para outros territórios: regulação climática, fertilidade, água e captura de carbono.

Hoje, a primeira região pode parecer economicamente improdutiva, enquanto a segunda aparece como riqueza nacional.

A hipótese BrainLatam inverte essa percepção:

Todo território produz valor. A questão é saber quem mede esse valor, como ele entra na economia e se retorna às pessoas que vivem e cuidam do bioma.

Carbono Cidadão: medir o território inteiro

A proposta não se limita a projetos privados que escolhem uma área, calculam emissões evitadas e vendem créditos a compradores externos.

O Estado mapearia cada região brasileira para estimar:

  • a cobertura vegetal existente;

  • a cobertura nativa historicamente possível;

  • o carbono atualmente armazenado;

  • o potencial de captura pela restauração;

  • o déficit ecológico criado pela retirada da vegetação;

  • as pessoas e comunidades que preservam e regeneram aquele território.

O Brasil já possui uma base institucional para começar essa construção. As Contas Econômicas Ambientais do IBGE integram dados econômicos, ambientais e espaciais e registram mudanças na cobertura dos biomas. Elas ainda não constituem o sistema proposto pela BrainLatam, mas mostram que natureza e economia podem ser contabilizadas dentro de uma mesma arquitetura pública.

Contudo, precisamos fazer uma distinção decisiva.

A legislação brasileira define crédito de carbono como ativo representativo de retenção, redução ou remoção efetivamente realizada e verificada. Portanto, o carbono que uma área poderia capturar se fosse restaurada não deveria ser vendido imediatamente como compensação de emissões. (Senado_legis)

Podemos criar duas camadas:

Carbono realizado: redução, retenção ou remoção comprovada, capaz de gerar crédito ambiental negociável.

Potencial ecológico territorial: estimativa pública do que aquela região poderia armazenar ou recuperar, utilizada para orientar o Drex Cidadão, a restauração e a cobrança pelo déficit ambiental.

Essa separação protege a proposta contra créditos fictícios e dupla contagem. As regras recentes do mecanismo do Artigo 6 do Acordo de Paris também exigem adicionalidade, metodologias, transparência e controles para que a mesma redução não seja utilizada duas vezes. (UNFCCC)

Quem preserva recebe; quem utiliza o déficit contribui

Na hipótese BrainLatam, parte do valor ecológico de uma região circularia diariamente nos CPFs das pessoas que nela vivem e ajudam a preservá-la.

Não seria apenas uma renda destinada aos proprietários de terra.

Uma distribuição justa poderia combinar três direitos:

Pertencimento territorial: uma parcela para quem vive no município ou bioma e depende de seus serviços ecológicos.

Cuidado comprovado: uma parcela adicional para pessoas, comunidades, agricultores e povos que preservam, restauram ou regeneram.

Reparação territorial: recursos destinados a regiões historicamente degradadas, permitindo que a pobreza não impeça a restauração.

A terra que perdeu cobertura nativa teria uma contribuição ecológica calculada a partir de seu déficit e dos benefícios econômicos obtidos com aquele uso. Essa contribuição financiaria restauração, proteção hídrica e o dividendo dos Corpos-Territórios locais.

Ela precisaria ser progressiva. Um pequeno agricultor não pode ser tratado como um grande grupo que acumulou riqueza degradando milhares de hectares. Territórios indígenas e comunidades tradicionais também não podem ser transformados em prestadores subordinados de serviços para fundos externos.

O objetivo não é punir a produção.

É reconhecer que:

Toda produção utiliza território, e parte do valor produzido pertence às condições ecológicas que a tornaram possível.

O serviço territorial incorporado ao produto brasileiro

A proposta pode avançar além do crédito de carbono.

Cada produto brasileiro poderia carregar um Serviço Territorial Incorporado: um registro transparente mostrando a condição ecológica da região, sua contribuição climática, o déficit existente e quanto do valor econômico retornou ao território.

Assim, café, soja, carne, frutas, energia, minérios ou produtos industriais não seriam avaliados apenas pelo preço final. Carregariam também a conta da água, do solo, do carbono, da biodiversidade e da restauração.

Isso permitiria:

valorizar produtos provenientes de territórios preservados;
reduzir vantagens competitivas baseadas em degradação invisível;
orientar compras públicas e investimentos;
agregar soberania ambiental às exportações brasileiras.

A biodiversidade sustenta silenciosamente a produção e o bem-estar, embora seus processos sejam difíceis de medir e raramente apareçam nos preços. A CEPAL defende que esse patrimônio biológico seja incorporado ao planejamento econômico da América Latina sem separar conservação, direitos e transformação produtiva. (CEPAL)

Drex Cidadão não é o Drex atual

O Drex oficial é uma plataforma em desenvolvimento pelo Banco Central para transações programáveis com ativos tokenizados. O acesso previsto é mediado por instituições financeiras autorizadas, e os usuários finais ainda não participaram diretamente dos testes do piloto. (Banco Central do Brasil)

O Drex Cidadão é outra proposta: uma hipótese BrainLatam de CBDC de varejo e Direito Econômico de Existência, na qual dinheiro público digital poderia nascer diariamente nos CPFs e circular pelo território sem surgir como dívida individual. (brainlatam)

Mas isso não é apenas uma atualização tecnológica.

A Constituição proíbe o Banco Central de financiar diretamente o Tesouro, e a legislação estabelece como objetivo fundamental da autoridade monetária a estabilidade de preços. Portanto, uma emissão direta para cidadãos exigiria novo desenho jurídico, democrático, fiscal e monetário — possivelmente até mudanças constitucionais —, e não apenas uma decisão operacional sobre o Drex. (Planalto)

Um convite aos economistas e ao mercado financeiro

A proposta precisa agora encontrar economistas, atuários, ecólogos, antropólogos, juristas, profissionais bancários e especialistas em tecnologia capazes de testar uma pergunta ainda aberta:

É possível criar uma parcela de moeda nova vinculada à vida territorial, reduzindo gradualmente a dependência da expansão monetária baseada em endividamento?

Para isso, três registros não podem ser confundidos:

  1. Registro ecológico: mede cobertura, estoque, regeneração, biodiversidade e déficit.

  2. Registro monetário: determina quanto Drex Cidadão pode entrar em circulação sem romper a estabilidade de preços.

  3. Registro de carbono negociável: contém somente reduções ou remoções efetivamente verificadas.

O potencial ecológico poderia orientar a emissão, mas não seria uma autorização automática para criar dinheiro ilimitado. A quantidade distribuída precisaria considerar capacidade produtiva, inflação regional, oferta de alimentos, emprego, velocidade de circulação e retorno tributário.

CBDCs de varejo também podem alterar depósitos bancários, crédito, privacidade e estabilidade financeira. Estudos do BIS recomendam arquiteturas híbridas, governança de dados e mecanismos como limites de saldo ou regras de remuneração. (Bank for International Settlements)

A emissão poderia começar pequena, experimental e reversível, com auditoria pública. O cidadão deveria enxergar a fórmula, contestar seus dados e utilizar o dinheiro sem vigilância moral. Drex Cidadão não pode se tornar moeda programada para controlar alimentação, voto, religião ou comportamento.

Uma economia antiga e novamente possível

A arqueologia andina mostra que economia nunca foi apenas moeda ou dívida.

Pesquisas sobre Paracas reconstruíram redes que conectavam costa e terras altas, combinando acesso a diferentes zonas ecológicas, mobilidade e intercâmbios. Nos Andes circumpunenhos, arqueólogos argentinos identificaram economias corporativas que coordenavam trabalho, pastoreio e territórios diversos para além da unidade doméstica. Esses mundos também possuíam desigualdades, mas demonstram que valor pode nascer da relação entre ambientes e comunidades, não apenas de ativos financeiros abstratos. (Cambridge University Press & Assessment)

Ailton Krenak nos ajuda a perceber que uma floresta viva não é uma reserva aguardando monetização. É uma condição de futuro. (Editora Elefante)

Talvez o Drex Cidadão e o Carbono Cidadão não devam “dar preço à vida”.

Devam fazer o contrário:

obrigar o dinheiro a reconhecer que sempre dependeu dela.

A pergunta central permanece:

Como economistas, cientistas, comunidades e agentes financeiros podem transformar a soberania monetária e ecológica brasileira em dinheiro novo que circule diariamente nos Corpos-Territórios — sem produzir inflação, especulação ou uma nova colonização dos biomas?

Referências comentadas

BrainLatam (2026). Drex Cidadão: dinheiro como metabolismo do território.
Apresenta a hipótese de moeda pública digital nascendo no cidadão como direito econômico, e não como dívida individual. (brainlatam)

Banco Central do Brasil. Piloto Drex.
Esclarece que o projeto oficial permanece voltado a uma plataforma intermediada e ainda não corresponde ao Drex Cidadão proposto pela BrainLatam. (Banco Central do Brasil)

Brasil (2024). Lei nº 15.042 — Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões.
Define crédito de carbono a partir de retenções, reduções ou remoções efetivamente mensuradas e verificadas. (Senado_legis)

IBGE (2022). Contas Econômicas Ambientais da Terra.
Oferece uma base pública para integrar cobertura dos biomas, mudanças territoriais e atividade econômica.

BIS-CGIDE (2024). A Proposal for a Retail CBDC Architecture.
Descreve uma arquitetura híbrida de CBDC de varejo e os papéis possíveis do banco central e dos intermediários. (Bank for International Settlements)

CEPAL (2023). Biodiversity as a Driver of Sustainable Transformation.
Defende a integração da biodiversidade às estratégias produtivas e ao desenvolvimento regional latino-americano. (CEPAL)

Maryañski, J.; Nielsen, A. (2022). Pastoreo y caza en las economías corporativas del Río Grande de San Juan.
Revela formas coletivas de coordenação econômica e territorial nos Andes pré-colombianos. (Cambridge University Press & Assessment)

Krenak, A. (2022). Futuro ancestral.
Questiona uma economia que só reconhece valor depois que rios, florestas e territórios são transformados em mercadorias. (Editora Elefante)






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States