Jackson Cionek
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APUS: o corpo além da pele

APUS: o corpo além da pele

E se o corpo não terminasse onde a pele acaba, mas continuasse na montanha, na água, na casa, na rua, na mata e no território?

Essa pergunta é o centro do conceito de APUS. Na nossa leitura BrainLatam2026, APUS é a propriocepção estendida: a capacidade do corpo de se orientar não apenas por músculos, articulações e postura, mas também pelo ambiente onde vive, pelos vínculos que o sustentam e pelo território que dá sentido à sua existência.

A ciência costuma tratar a propriocepção como a percepção da posição e do movimento do corpo. Ela explica como sabemos onde está nossa mão mesmo de olhos fechados, como ajustamos o equilíbrio ao caminhar e como o corpo se organiza no espaço. Mas, quando olhamos desde a América Latina, dos povos originários e do corpo-território, essa definição ainda é pequena. O corpo não se orienta apenas dentro de si. Ele se orienta também pelo mundo que habita.

A gente respira diferente quando entra numa mata. O corpo relaxa diante de uma paisagem segura. A atenção muda quando estamos perto da água. A postura se contrai em uma rua violenta. A casa pode acolher ou aprisionar. Uma montanha pode funcionar como referência de estabilidade. Um rio pode organizar memória, infância e pertencimento. Isso não é apenas imaginação. É o corpo regulando sua existência a partir do território.

Por isso, APUS não é uma metáfora. É uma maneira de dizer que o corpo tem mapas que ultrapassam a pele. Esses mapas são sensoriais, afetivos, sociais e territoriais. O corpo sente o chão onde pisa, a qualidade do ar, a presença dos outros, a confiança ou ameaça de um ambiente, a memória de um lugar e a possibilidade de pertencer.

Na perspectiva do corpo-território, essa ideia ganha força. Rogério Haesbaert mostra que, na leitura latino-americana, território não é apenas uma área controlada por leis ou pelo Estado. Ele envolve corpo, terra, povos originários, feminismos decoloniais e território-corpo da Terra. Ou seja, território é espaço de vida e de r-existência, não apenas propriedade ou recurso econômico. (UFF Journals)

APUS aparece justamente nessa passagem: quando o corpo deixa de ser entendido como organismo isolado e passa a ser percebido como corpo em continuidade com o território. O corpo humano não é uma máquina fechada. Ele é uma abertura sensível ao mundo. Ele sente clima, relevo, luz, som, presença, ausência, ameaça e cuidado.

As referências latino-americanas recentes sobre cuerpo-territorio reforçam essa visão. Um artigo de 2023 sobre feminismos indígenas e corpo-território nas Américas destaca três pontos centrais: o colonialismo é inseparável do patriarcado, a violência contra o corpo está ligada à violência contra a terra, e a vida humana existe em relação com a terra, animais, plantas e outros seres.

Isso é decisivo para APUS. Quando a terra é ferida, o corpo também é ferido. Quando a água é contaminada, não é apenas o ambiente que adoece; a orientação corporal, afetiva e coletiva também se altera. Quando a mata desaparece, desaparece uma parte da propriocepção estendida de uma comunidade. O corpo perde referências de mundo.

A colonização, nesse sentido, não tomou apenas terras. Ela cortou o APUS. O território vivo foi sendo dividido em papéis: títulos, escrituras, contratos, dívidas, cercas, concessões, fundos, ativos e alavancagens financeiras. A montanha virou propriedade. A água virou negócio. A mata virou recurso. A terra virou mercadoria. O APUS foi esquartejado.

Quando isso acontece, o corpo perde o todo. Ele continua vivo, mas sua orientação fica empobrecida. Ele passa a viver em fragmentos: casa separada da rua, rua separada da cidade, cidade separada da terra, trabalho separado da vida, dinheiro separado do cuidado. A pessoa começa a se sentir “indivíduo” como se isso significasse estar sozinha. Mas o indivíduo isolado é uma invenção pobre diante da complexidade da vida.

Aqui a neurociência contemporânea começa a oferecer pistas importantes, mesmo que ainda use uma linguagem limitada. Estudos com fNIRS hyperscanning mostram que essa técnica tem maior tolerância ao movimento e maior validade ecológica, sendo útil para investigar interações sociais mais naturais. Esses estudos observam sincronização entre cérebros em contextos como pares próximos, amigos, pais e filhos e pessoas colaborando. (Nature)

Além disso, a chamada Neurociência Relacional propõe estudar as dinâmicas entre cérebros durante vínculos humanos reais, incluindo cooperação, empatia, apego, grupos e desenvolvimento. Essa abordagem reconhece que não basta medir um cérebro isolado: é preciso considerar comportamento, fisiologia e contexto social para interpretar a dinâmica entre pessoas. (ScienceDirect)

Mesmo assim, ainda falta uma linguagem mais decolonial. A ciência fala em “sincronia neural”, “inter-brain synchrony”, “social coordination” e “ecological validity”. Tudo isso é importante, mas ainda não alcança plenamente o que APUS nomeia: o corpo não está apenas interagindo com outro corpo; ele está se orientando dentro de um campo maior de pertencimento.

Quando usamos EEG, fNIRS, respiração, HRV/RMSSD, GSR, EMG e movimento corporal em estudos multimodais, podemos começar a medir esse corpo expandido. Podemos observar como uma pessoa muda diante de uma paisagem, de uma música, de uma conversa, de uma roda, de uma sala de aula, de uma ameaça ou de um ambiente de confiança. Mas a pergunta precisa mudar.

Não basta perguntar: “o que acontece no cérebro?”.
Precisamos perguntar: que território está formando esse corpo?

Não basta perguntar: “qual área cerebral ativou?”.
Precisamos perguntar: que APUS foi ativado, ferido ou restaurado?

Essa mudança é fundamental para uma Neurociência Decolonial. O cérebro não deve ser tratado como órgão abstrato separado do território. Ele é parte de um corpo que respira, se posiciona, se defende, confia, aprende e pertence. E esse corpo sempre está em algum lugar.

APUS também ajuda a compreender por que certos ambientes favorecem criatividade, fruição e metacognição, enquanto outros empurram o corpo para defesa. Um território acolhedor amplia o corpo. Um território violento contrai o corpo. Um território privatizado demais fragmenta o corpo. Um território vivo permite que o corpo pense melhor.

É por isso que APUS conversa diretamente com a Zona 2. Quando o corpo sente segurança suficiente, ele pode diminuir a defesa, ampliar a atenção, respirar melhor, perceber nuances, atualizar crenças e criar novas possibilidades. A Zona 2 não nasce apenas dentro da cabeça. Ela depende do corpo situado, do ambiente e do pertencimento.

Da mesma forma, APUS ferido pode empurrar o corpo para Zona 3. Quando a criança cresce sem confiar no coletivo, quando a cidade ameaça, quando a terra vira disputa, quando o dinheiro organiza tudo e quando o território é reduzido a propriedade, o corpo aprende a se proteger. Ele estreita a atenção, endurece a postura e passa a viver como se o mundo fosse sempre ameaça.

A grande contribuição de APUS é mostrar que pertencimento não é apenas uma ideia bonita. Pertencimento é orientação corporal. É saber onde se está. É sentir que o corpo tem chão, vínculo, paisagem, memória e futuro. Sem APUS, a pessoa pode até ter endereço, mas não necessariamente tem território. Pode ter casa, mas não necessariamente tem pertencimento. Pode ter dinheiro, mas não necessariamente tem mundo.

Por isso, APUS é também político. Se o corpo se estende no território, então destruir o território é destruir parte do corpo. Se privatizar tudo fragmenta a experiência coletiva, então a política precisa reconstruir condições de pertencimento. Educação, saúde, segurança, moradia, água, mata, praça, rua e tecnologia não são temas separados. Todos eles organizam ou desorganizam o APUS.

No futuro, quando falarmos de DREX Cidadão, essa conexão ficará ainda mais clara. Se o dinheiro nasce apenas nos bancos, na dívida e na especulação, ele reforça o APUS esquartejado. Mas se o dinheiro nasce no cidadão como metabolismo básico do território, ele pode voltar a circular como energia social mínima para sustentar vida, cuidado e pertencimento.

APUS, portanto, é o corpo além da pele. É a montanha sentida como estabilidade. É a água sentida como continuidade. É a casa sentida como abrigo. É a rua sentida como confiança ou ameaça. É a mata sentida como respiração ampliada. É o território sentido como parte da própria consciência.

A gente não pensa apesar do território.
A gente pensa com o território.

E talvez essa seja uma das grandes tarefas da Neurociência Decolonial: mostrar que o corpo nunca esteve sozinho. Ele sempre foi mais do que pele. Ele sempre foi APUS.


Referências

DAMASIO, Antonio. Feeling & Knowing: Making Minds Conscious. New York: Pantheon Books, 2021.
Base para pensar a consciência como processo corporal, integrado à regulação do organismo, à interocepção e à propriocepção.

HAESBAERT, Rogério. “Do corpo-território ao território-corpo (da Terra): contribuições decoloniais.” GEOgraphia, v. 22, n. 48, 2020.
Referência central para articular corpo-território, território-corpo da Terra, povos originários e pensamento decolonial latino-americano.

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
Ajuda a pensar pertencimento como continuidade entre corpo, rio, montanha, memória e território.

D’ARCANGELIS, Carol Lynne; QUIROGA, Lorna. “Cuerpo-Territorio: Towards Feminist Solidarities in the Americas.” Revista Eletrônica da ANPHLAC, n. 35, 2023.
Importante para relacionar corpo-território, feminismos indígenas, colonialismo, extrativismo e violência contra a terra e os corpos.

CORADIN, Cristiane. “Territory and community feminisms to think about building…” Saúde em Debate, 2024.
Contribui para conectar corpo-território, feminismos comunitários e produção coletiva de cuidado.

DE FELICE, Silvia et al. “Relational neuroscience: Insights from hyperscanning research.” Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 2025.
Propõe a Neurociência Relacional como campo para estudar dinâmicas entre cérebros, vínculos, cooperação, empatia e grupos.

CHEN, Y. et al. “An fNIRS hyperscanning dataset on the modulation of synchrony by social relationship during social touch.” Scientific Data, 2025.
Mostra a relevância do fNIRS hyperscanning para estudar interações sociais naturalísticas, sincronia entre cérebros e relações sociais.

GRASSO-CLADERA, Aitana et al. “Embodied hyperscanning for studying social interaction: a scoping review of simultaneous brain and body measurements.” Social Neuroscience, 2024.
Aproxima hyperscanning, corpo, medidas fisiológicas e interação social, ajudando a sustentar a ideia de corpo relacional.







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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States