Jackson Cionek
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A maravilha de Ser muitos sem deixar de Ser

A maravilha de Ser muitos sem deixar de Ser

Sistemas complexos, APUS, Tekoha, Quorum Sensing Humano e a emergência do Jiwasa

A praça que encontramos durante o sonho

Imagine que você está sonhando.

Caminha por uma praça desconhecida.

Existem árvores, bancos, pessoas conversando e crianças brincando. Ao longe, um monumento desperta sua curiosidade.

Você se aproxima.

Encontra alguém que parece conhecê-lo.

Conversam.

Talvez essa pessoa revele algo surpreendente. Talvez você sinta alegria, medo ou pertencimento.

Tudo parece acontecer naquele espaço.

Agora desperte.

Seu corpo estava deitado.

Você não percorreu fisicamente aquela praça.

Mas experimentou distâncias, movimentos, encontros e emoções.

Como um único Corpo-Território conseguiu produzir tantos personagens, acontecimentos e possibilidades de Ser?

Na BrainLatam, investigamos essa experiência utilizando dois conceitos autorais da Consciência 5D: APUS e Tekoha.

O APUS representa nossa hipótese de propriocepção estendida, envolvendo posição, alcance, orientação e possibilidades de movimento diante do ambiente.

O Tekoha representa a interocepção estendida: o território incorporado aos ritmos fisiológicos, memórias, sentimentos e condições do viver.

Durante o sonho, a praça é predominantemente construída internamente. Nessa interpretação, destacamos o Tekoha, embora também possam existir representações espaciais e motoras semelhantes àquelas investigadas pelo APUS.

No sonho, podemos caminhar sem deslocar fisicamente nosso corpo pela praça.

Mas o que acontece quando decidimos visitá-la despertos?

Quando a praça encontra nosso corpo

Agora estamos caminhando por uma praça verdadeira.

Sentimos o solo.

Precisamos ajustar o equilíbrio, calcular distâncias, desviar de obstáculos e reorganizar movimentos.

Uma escada exige determinada preparação corporal.

Uma rampa oferece outra possibilidade.

O APUS, em nossa linguagem, participa desse encontro efetivo entre Corpo-Território e ambiente.

Mas o Tekoha continua presente.

Nossa respiração, frequência cardíaca, experiências anteriores e sentimentos acompanham cada passo.

Uma pessoa pode sentir segurança.

Outra, diante da mesma praça, pode experimentar desconforto.

A arquitetura não produz uma experiência idêntica para todos.

Em Arquitectura que piensa conmigo, investigamos como dobrar uma esquina pode modificar a atenção espacial.

O estudo de Zakaria Djebbara e colaboradores, publicado em 2025, utilizou EEG móvel e realidade virtual para investigar como configurações arquitetônicas interferem nas demandas de atenção durante a navegação.

A praça sonhada e a praça percorrida não são equivalentes.

Na primeira, experimentamos uma representação espacial sem a correspondente caminhada externa.

Na segunda, o corpo encontra continuamente consequências físicas que podem confirmar ou contrariar suas expectativas.

Em ambas, porém, nossa percepção continua sendo uma construção do Corpo-Território.

Quem desenhou nossos movimentos?

Em 2021, o físico Giorgio Parisi recebeu parte do Prêmio Nobel por suas contribuições à compreensão dos sistemas complexos.

Neles, numerosas partes interagem e podem produzir organizações coletivas difíceis de compreender observando cada elemento isoladamente.

Voltemos à praça.

Pessoas caminham em diferentes direções.

Pequenos ajustes evitam colisões.

Fluxos coletivos podem emergir sem que alguém determine individualmente todos os passos.

Mas olhe novamente.

Quem decidiu onde ficariam os caminhos, bancos, árvores e monumentos?

Uma praça monumental pode conduzir olhares e movimentos para símbolos de autoridade.

Outra pode oferecer caminhos variados, espaços de contemplação e oportunidades de encontro.

Nenhuma delas determina automaticamente nossas crenças.

Entretanto, suas configurações modificam as possibilidades de circulação, percepção e interação.

Uma praça pode celebrar a diversidade.

Também pode representar uma determinada concepção de ordem, nação, religião ou poder.

O mesmo monumento pode despertar orgulho em alguém e sofrimento em outra pessoa.

Assim, a emergência coletiva depende não apenas dos participantes, mas das condições oferecidas pelo território.

Uma multidão seguindo o mesmo caminho não constitui necessariamente um Jiwasa.

A verdade pode estar entre nós

Imagine duas pessoas diante daquele monumento.

Ambas são sinceras.

Uma reconhece nele uma história de conquistas.

A outra recorda experiências de exclusão.

Precisamos escolher imediatamente uma interpretação e silenciar a outra?

Talvez ambas conheçam aspectos diferentes da história.

Talvez alguma afirmação esteja equivocada.

Podemos confrontar documentos, experiências e evidências sem negar o direito de cada pessoa expressar sua perspectiva.

O resultado não precisa ser um compromisso intermediário entre duas opiniões.

Pode surgir uma terceira compreensão, que nenhuma delas conseguiria construir isoladamente.

A verdade pode estar entre nós, sem pertencer exclusivamente a nenhum de nós.

Na experiência espiritual de algumas pessoas, Deus também pode ser sentido nesse encontro, sem precisar ser identificado com qualquer participante.

Outras encontrarão significados diferentes.

A liberdade de consciência permite que essas experiências coexistam.

E a metacognição pode ajudar-nos a reconhecer que nossa interpretação não contém necessariamente toda a realidade.

Cinco caçadores, cinco possibilidades

Retornemos imaginariamente à Mata Atlântica.

Cinco caçadores associados à tradição arqueológica Umbu procuram uma caça.

Um percebe movimento entre as árvores.

Outro identifica um possível risco.

Um terceiro altera sua trajetória.

Os demais precisam reorganizar-se.

Não conhecemos os detalhes de uma caçada antiga. Nossa cena é uma construção narrativa inspirada em evidências arqueológicas brasileiras.

Agora imagine que o caçador mais jovem perceba algo inesperado.

Ele sinaliza.

O mais experiente interrompe seu movimento.

O grupo modifica a estratégia.

Algo interessante aconteceu.

A informação de um participante transformou possibilidades disponíveis aos demais.

Mas isso ainda não comprova a emergência de um Jiwasa.

Precisamos perguntar se cada participante pode efetivamente influenciar, discordar e reorganizar a ação compartilhada.

O coletivo não deve ser confundido com submissão à liderança.

Podemos Ser muitos sem exigir que alguém deixe de Ser.

Quando a interação constrói significado

Os pesquisadores chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela contribuíram para compreender a cognição considerando a organização dos sistemas vivos e sua história de interações.

Posteriormente, Hanne De Jaegher e o pesquisador argentino Ezequiel Di Paolo desenvolveram o conceito de produção participativa de sentido.

A proposta investiga como significados podem ser transformados pela própria dinâmica do encontro entre pessoas.

Imagine dois músicos improvisando.

Um apresenta uma melodia.

Outro introduz uma pausa.

O primeiro precisa reconsiderar sua próxima ação.

Talvez ambos encontrem uma possibilidade que não haviam preparado individualmente.

Agora imagine cinco nadadoras artísticas.

Quando executam uma coreografia previamente estabelecida, demonstram coordenação extraordinária.

Quando precisam adaptar reciprocamente seus movimentos diante de um acontecimento inesperado, surge outra exigência.

A pergunta não é qual atividade é superior.

É quem pode modificar aquilo que acontece durante a transição.

Quorum Sensing Humano e Egrégora

Na microbiologia, quorum sensing descreve mecanismos de comunicação química pelos quais bactérias regulam determinadas respostas conforme os sinais presentes.

Na BrainLatam, utilizamos Quorum Sensing Humano como hipótese autoral.

Não estamos afirmando que humanos utilizam o mesmo mecanismo bacteriano.

Queremos investigar como gestos, sentimentos, movimentos, linguagem e expectativas participam da emergência de organizações coletivas.

Mas existe outra possibilidade.

Durante os sonhos, podemos encontrar muitos personagens produzidos pela experiência de um único Corpo-Território.

No Religare, chamamos de Egrégora um espaço de encontro entre diferentes possibilidades percebidas de Ser.

Essa experiência não exige necessariamente múltiplos corpos.

Podemos investigar a multiplicidade interior por meio de imagens mentais, memórias, diálogo interno e metacognição.

Isso não comprova a existência de consciências independentes dentro de nós.

Talvez o primeiro coletivo que precisamos compreender seja aquele que conseguimos experimentar dentro de um UM.

E talvez os encontros externos acrescentem possibilidades que não conseguimos controlar individualmente.

Podemos investigar a emergência?

Imagine cinco participantes realizando tarefas de movimento, percepção e decisão.

Primeiro, cada um atua individualmente.

Depois, todos seguem uma instrução comum.

Finalmente, precisam construir uma solução que qualquer participante possa modificar.

Registramos EEG, fNIRS, ECG, variabilidade cardíaca, respiração e comportamento.

Investigamos sentimentos, pertencimento, discordância e possibilidades de ação.

Também podemos comparar ambientes físicos com diferentes configurações arquitetônicas e experiências espaciais imaginadas.

Precisamos distinguir sincronização produzida por estímulos comuns de mudanças efetivamente recíprocas.

Nenhuma medida isolada demonstrará uma consciência coletiva.

Mas podemos identificar condições nas quais as contribuições individuais transformam a organização compartilhada.

A maravilha de continuar sendo

Ailton Krenak nos convida a questionar concepções de humanidade separadas da Terra e dos demais seres.

Essa perspectiva amplia nossa pergunta sobre pertencimento.

No sonho, um Corpo-Território pode produzir uma praça inteira em sua experiência.

Na vigília, encontra uma praça construída historicamente, compartilhada com pessoas cujos movimentos não controla.

O APUS e o Tekoha oferecem nossa linguagem autoral para investigar essas diferenças entre o território encontrado e aquele incorporado.

A metacognição permite questionar as imagens que reconhecemos como realidade.

A Egrégora preserva a possibilidade de multiplicidade dentro do UM.

E o Jiwasa nos convida a investigar encontros nos quais diferenças possam ampliar possibilidades compartilhadas.

Na Ciência, isso exige liberdade para questionar.

Na Religião, respeito às experiências espirituais.

Na Política, instituições que permitam participação e revisão das decisões.

Talvez uma democracia não deva ser reconhecida apenas porque muitas pessoas estão reunidas.

O Jiwasa pode emergir quando cada Corpo-Território conserva a possibilidade de transformar aquilo que todos estão construindo.

Voltemos à praça.

Você percebe um caminho.

Eu percebo outro.

Podemos continuar separados.

Podemos seguir uma liderança.

Ou construir uma passagem que ainda não existia.

A maravilha de Ser muitos sem deixar de Ser talvez esteja em descobrir que o Nós não precisa eliminar nenhum UM para continuar criando.

Nossa pergunta permanece:

Como reconhecer um Jiwasa no qual cada Corpo-Território participa da transformação do coletivo sem perder sua agência?


Referências comentadas

Parisi, Giorgio (2021). The Nobel Prize in Physics 2021. Nobel Prize Outreach.

Reconhece suas contribuições para a compreensão da desordem e das flutuações em sistemas físicos complexos. Oferece fundamentos para investigar emergência sem equiparar fenômenos físicos à consciência.

Maturana, Humberto; Varela, Francisco (1984). El árbol del conocimiento: las bases biológicas del entendimiento humano. Editorial Universitaria.

Contribuição chilena para compreender a cognição, a organização dos seres vivos e suas relações históricas com o ambiente.

De Jaegher, Hanne; Di Paolo, Ezequiel (2007). Participatory sense-making: An enactive approach to social cognition. Phenomenology and the Cognitive Sciences, 6, 485–507.

Desenvolve a produção participativa de sentido, permitindo investigar como os significados se transformam durante a interação sem eliminar a autonomia individual.

Djebbara, Zakaria; Huynh, Dylan Chau; Koselevs, Aleksandrs; Chen, Yiru; Fich, Lars Brorson; Gramann, Klaus (2025). Turning corners in built environments shifts spatial attention costs. NeuroImage, 322, 121549.

Utiliza EEG móvel e realidade virtual para investigar como diferentes configurações arquitetônicas interferem nos processos de atenção espacial.

Mukherjee, Sampriti; Bassler, Bonnie L. (2019). Bacterial quorum sensing in complex and dynamically changing environments. Nature Reviews Microbiology, 17, 371–382.

Revisa os mecanismos moleculares de comunicação bacteriana. Serve como referência e contraponto à hipótese autoral de Quorum Sensing Humano.

Schmitz, Pedro Ignácio; Rogge, Jairo Henrique (2015). Tradição Umbu na Mata Atlântica de Taió, SC.

Documenta ocupações arqueológicas associadas à tradição Umbu, contextualizando a cena imaginada dos cinco caçadores.

Krenak, Ailton (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras.

Questiona a separação entre humanidade e natureza e amplia o debate sobre pertencimento, território e diversidade de modos de existência.

BrainLatam (2025). Apus — A Propriocepção Estendida do Ser.

Desenvolve a interpretação autoral do APUS como relação ampliada entre corpo, posição e território.

BrainLatam. Neuroscience Perception Avatars.

Apresenta APUS e Tekoha como avatares conceituais de propriocepção estendida e interocepção estendida.

BrainLatam (2025). Arquitectura que piensa conmigo — Doblar esquinas y el costo oculto de la atención espacial.

Relaciona neuroarquitetura, atenção espacial, movimento e o conceito de Corpo-Território.

BrainLatam (2023). A Arte de Velar e Desvelar a Verdade.

Desenvolve reflexões sobre memória, vieses, imagens percebidas e construção subjetiva da realidade.

Cionek, Jackson. Religare — Religiosidade Plena em um Estado Democrático, Laico e de Direito.

Obra filosófica e espiritual que apresenta Egrégora, CRIAturas e Sala Eu Sou como possibilidades de pensar a multiplicidade experiencial em um único Corpo-Território.

Nota conceitual: APUS e Tekoha são utilizados em suas formulações específicas da BrainLatam, não como equivalentes anatômicos comprovados. Seus nomes possuem contextos próprios nas tradições andinas e guarani, que devem ser respeitados. As evidências sobre atenção espacial e produção participativa de sentido sustentam perguntas experimentais, não a comprovação do Jiwasa.


BrainLatam | W44/2026

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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States